quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Uma de mil e uma noites no Centro Literário Pedro Nestor

        A primeira vez que entrei no grande salão, maravilhei-me com aquelas luzes: algumas faziam os corpos moverem-se diante de mim em intervalos síncronos; depois esmaecia, era quando brilhava, de dentro de uma espécie de domo roxa presa ao teto, uma luz única ou todas ao mesmo tempo, uma luz que parecia água a inundar o ambiente. Minha camisa branca flamejava alva como a túnica de um anjo; não só a minha, mas as dos outros corpos movendo-se frenéticos ao som de “Like a Virgin”; “the heart is on”; “Material girl”; “Self control” – Era tudo lindo, nunca mais me esqueci daqueles momentos. Os vestidos das meninas, seus cabelos meio desarrumados, seus olhos refletindo a luz do ambiente nem claro, nem escuro, às vezes claro, outras escuro.

        Foi quando eu a vi, ali, tão perto, dançava linda e docemente em meio aos saltos frenéticos dos corpos jovens amontoados no grande salão. Ela era linda, cabelos negros, pele alva lábios vermelhos e quinze anos de idade. Eu dezesseis. Nossos olhares se cruzaram; tremi! ela me reconheceu e chamou-me para junto dela. Fui, claudicante, cheguei perto daquele pequeno e belo corpo, um doce perfume emanava dele. A luz branca acendeu: eu vi a geometria do seu rosto, os lábios destacaram combinando com olhos cor de mel. A luz branca apagou; e começou a tocar, “Menina Veneno” do Ritchie – um cantor que fazia sucesso no início da década de oitenta—, coincidência? Tentei me aproximar mais, ela pedira-me: deu-me dois beijos em cada lado da minha rubra face; talvez, ela sentira o calor que emanava provocado pelo seu toque. Em seguida aproximou-se do meu ouvido e gritou, mas o som abafava sua voz mesmo gritando sua voz pareceu-me um doce murmúrio:

-- Obrigada!

Retruquei:

-- O que você disse?

E ela gritou mais alto ao meu ouvido; era o que eu queria: ouvir aqueles doces arpejos novamente.

-- Obrigada, por ter feito a minha prova de história, tirei total era o que eu precisava para passar, sessenta pontos, em cima. Obrigada!

Obviamente que fiquei um pouco desapontado e respondi:

-- Não precisa me agradecer; afinal, eu tinha me oferecido para fazer a prova para ela quando me disse que não passaria em história, caso não tirasse total na última prova.

        Foi quando eu tive uma ideia maquiavélica: eu a prometi que responderia a prova a lápis levemente, porém, não a assinaria, quando a professora se distraísse eu lha daria a prova pronta, bastava que ela escrevesse à tinta copiando minhas respostas e depois ela apenas apagaria, aguardava um tempo, assinaria e lha entragava à professora. “Rolou”! tudo certo; claro que faria por ela, era a garota mis linda e meiga da sala no curso do científico.

        Mas voltando ao grande salão; dançamos peguei em sua mão timidamente, tremendo, dei-lhe um impulso e ela girou. Sua saia rodada e levemente plissada acompanhou o movimento levantando-se e mostrando seus joelhos. -- Pronto, ganhei a noite, pensei.

        Dançamos mais um pouco e ela cansada pediu para que saíssemos do meio da disco e fossemos ao canto do salão onde tinha um bar. Em minha mente passou, como se fosse um filme, o que tinha acontecido antes.

        A grande aventura começara entrando no salão passando-se por sócio no meio daqueles que realmente eram sócios, porque não tinha dinheiro para pagar e os sócios não pagavam: primeiro aguardei a entrada encher de pessoas; segundo passo misturei-me àquele burburinho; terceiro driblei o olhar do sr. Vicente que ficava na portaria atento e o faro do Gato. O Gato era um homem mal encarado que era qualquer coisa de menores, todos o temiam – nós menores de dezoito anos, claro. Consegui vencer as três etapas fácil, mas tinha outro problema: eu tinha apenas uma nota de um cruzeiro, nada mais. Bom, o que eu faria com essa nota de cruzeiro, única que restara do meu salário de um mês inteiro, recebido no dia anterior, obviamente que pagando as prestações das roupas, do sapato não sobrava quase nada e o “quase” eu passava para minha mãe e ficava com um cruzeiro.

        Voltando ao pedido da garota de ir ao bar no canto do salão, lembrei-me com tristeza da minha última nota de um cruzeiro, que não compraria nada, mas o que ela pediria;

-- meu Deus, pensei, o que ela vai pedir, eu tenho que pagar, afinal, um cavalheiro naquele início da década de oitenta jamais deixaria de pagar algo que a garota pedisse; ainda que esse cavalheiro tivesse apenas dezesseis anos.

        Ela pediu um copo de água mineral, esfriei, contorci-me por dentro e com a voz quase falhando perguntei ao atendente quanto era: -- um cruzeiro senhor! Era caro, porque na rua normalmente custaria cinquenta centavos, um copo de água mineral. Ela segurou o copo virou-se e afastou-se do bar; não tive alternativa senão dar ao atendente a minha última nota de um cruzeiro.

        Enquanto pagava ela virou-se e me olhou com aqueles olhos de quando aceitara que eu fizesse a prova de história. Não resisti. Paguei e não pensei mais na minha última nota de um cruzeiro.

        Ficamos conversando; quando ela olhou para o seu relógio: eram dez e meia da noite, moça de família, naquela época só ficava até às dez horas no salão.

-- Tenho que ir senão minhas tias me matam! Exclamou ela com aqueles lindos lábios carnudos e vermelhos.

-- Começara a tocar as músicas lentas, era o momento que todo garoto como eu tinha a chance de dançar juntinho com alguma garota, ainda mais ela. Prometi que a levaria até a casa dela – cerca de duzentos metros daquele salão – e explicaria para suas tias.  – Somente uma música, por favor! Implorei e ela aceitou, mas as coisas não correram muito bem, porque na verdade não esperava que ela aceitasse depois de infrutíferas investidas com outras garotas. Então, tremia e não conseguia dançar direito, mas podia sentir aquele perfume delicioso.

-- foi uma música curta, talvez a mais curta de todas as músicas lentas que ouvi em toda minha vida.

-- Então até segunda-feira na aula, disse ela meigamente.

-- Não! Respondi: -- Eu a acompanho; prometi a você e já eram dez horas e quarenta e cinco minutos.

-- Tudo bem, disse ela, mas temos de ser rápidos.

Então lembrei-me do Sr. Vicente e do Gato. Não tinha alternativa teria de passar por eles. Foi quando pensei e disse à linda garota:

-- Beleza! Vamos correndo.

Segurei sua mão e a puxei escada abaixo, olhei para trás e o Sr. Vicente me encarou como se quisesse me bater. Após descermos a escada, atravessarmos a rua direita eu olhei para o prédio – o saudoso centro literário Pedro Nestor – suspirei aliviado.

Seguimos mais lento, todavia, rápidos, ao chegar esperei que ela abrisse a porta e ela me respondeu:

-- Está tudo bem, estão todas dormindo.

-- Que ótimo retruquei, meio triste, então ela entrou rapidamente, e só... fui embora muito triste.

Na segunda-feira, nos encontramos no colégio e ela me pareceu muito receptiva. Mas o que aconteceu naquela semana e no sábado seguinte ficará para um outro texto.

Joandre Oliveira Melo.

 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Planeta Aventureiro


Você saindo de sua órbita: planeta aventureiro.

Alongando sua trajetória,

Vontade de mover-se aos confins do universo

Ou levado pela irresistível atração gravitacional daquela estrela brilhante.

Sabe-se lá que outras misteriosas forças o estão atraindo? Mistério!

Onde está tudo é reconhecível, tudo parece seguir seu destino.



Ah, Mas aquela estrela brilhante!...

Outros astros, embora próximos, parecem inóspitos e hostis

Alongam-se suas órbitas até aquela estrela brilhante.

Você é diferente: acolhedor e amistoso.



Cometas vibrantes e alígeros desenham órbitas longas codas ruçadas.

Ah, tanto o que explorar!

Ainda aquela estrela brilhante que você quer que o aprisione somente para ficar bem pertinho!...

Aqui, tudo segue serenas e programadas orbes.

Mas, você se alonga, deseja outro movimento

Indo além e voltando...

sempre voltando!...



Se fosse possível partir em direção daquela Estrela Brilhante: há risco de colisões astronômicas, talvez um encontro mortal com um buraco negro!

Por ouro lado, há expectativas luminosas a desenterrar desejos.

O destino imprime em você impossibilidades.

Mas, nada importa e você alonga sua órbita, mais e mais...



Você sente que a cada impulso em direção daquela estrela brilhante, algo muda dentro de você.

Angústia, Agonia, tristeza,

Ah, mas, há tanto o que explorar!



E a irresistível atração daquela Estrela Brilhante!

E você continua alongando-se, orbitando e sonhando...

sábado, 6 de maio de 2017

Mudam-se os atores, mas a peça continua a mesma...

Com grande tristeza que vejo os novos eleitos rezarem na mesma cartilhas dos quais criticam.
O retorno do famigerado imposto para a saúde é repetir a mesma conduta mal intencionada de antes.
Leiam na Folha de S. Paulo de 06/11/2010: A receita cresceu 2 CPMF's, mas gasto da saúde foi igual... O famigerado fator previdenciário ainda continua vigorando, será que não existe outra alternativa? porque o FP não resolveu o problema da Previdência?
Alguma ideias abaixo podem ser interessante em vez de mais um novo imposto que sempre onera o mais pobre:
Pode sair o fator previdenciário. Para contrabalançar existem inúmeras alternativas:

- Evitar o acúmulo de pensões. Pensão só é deixada para um e somente um. Quem já percebe uma pensão, seja contribuinte ou não, deve ser apenas uma e finda ao término de sua vida;
- aumentar o tempo de contribuição de 35 para 40 anos homem e 30 para 35 mulheres, sairia mais barato para nós do que submetermos ao fato previdenciário;

- Buscar a fiscalização ostensiva para recaptar o dinheiro que “vaza” da previdência;

- Uma propaganda maciça, com incentivos reais para que se pague a Previdência corretamente;

- Incentivar os contribuintes a aumentarem sua contribuição para que se aposentem melhor;

- Incentivar aqueles que não contribuem a fazê-lo de forma sistemática;

- Incentivar de forma sistemática e criteriosa a regularização das dívidas das empresas com a Previdência;

- Recursos: podem ser conseguidos da arrecadação do IR, TAXAÇÃO DE GRANDES FORTUNAS, reservas de dólares que socorrem os mercados (leia-se: os ricos), investimentos privados em pequenas proporções;

- Incremento e modernização dos serviços e produtos oferecidos pela previdência oficial;

- Fim das aposentadorias privilegiadas, salvo aquelas em que os contribuintes corram evidente perigo de agressão a sua integridade física e risco de morte. Todos são iguais perante a lei;

- Todos devem contribuir para que possam usufruir dos benefícios, inclusive aumentando o tempo mínimo de contribuição para aposentar-se por idade, de 15 para 20 anos.

- O pecúlio ao produtor rural não deve estar vinculado aos benefícios da Previdência; se queremos ajudá-los -- e eu acho que é uma dívida ser paga aos produtores rurais que não foram contemplados na época da criação da Previdência, no gverno Getúlio Vargas --, será necessário outro fundo para suportar os custos. Ou que eles contribuam com a Previdência Oficial pelo menos por um tempo mínimo.
mais detalhes em: http://espacointuicao.blogspot.com


Advertência: O texto abaixo, escrito por mim, não está baseado em nenhum outro texto ou artigo de especialistas em Previdência. Portanto não tem um referencial teórico, sendo uma interpretação livre da situação atual da Previdência Oficial e o fim do Fator Previdenciário. Além disso, apresento, dentro da minha limitada compreensão, algumas sugestões ao processo Previdenciário brasileiro. Sendo assim, não tem base científica e pode incorrer em erros.

Privatizar a Previdência Oficial não é a solução. Pelo menos sem antes tentar uma constelação de ações que podem torná-la viável e assegurar seu futuro. Essa medida afetará inexpugnavelmente a classe mais pobre, pois, na minha opinião aumentaria substancialmente o valor da contribuição. E como toda entidade privada tende a gerar lucros, atenderia melhor àqueles que pagassem cotas maiores, ainda que fosse regulada. Vejam o exemplo dos planos de saúde privados.
Pode sair o fator previdenciário. Para contrabalançar existem inúmeras alternativas:
- aumentar o tempo de contribuição de 35 para 40 anos homem e 30 para 35 mulheres, sairia mais barato para nós do que submetermos ao fato previdenciário;
- Buscar a fiscalização ostensiva para recaptar o dinheiro que “vaza” da previdência;
- Uma propaganda maciça, com incentivos reais para que se pague a Previdência corretamente;
- Incentivar os contribuintes a aumentarem sua contribuição para que se aposentem melhor;
- Incentivar aqueles que não contribuem a fazê-lo de forma sistemática;
- Incentivar de forma sistemática e criteriosa a regularização das dívidas das empresas com a Previdência;
- Recursos: podem ser conseguidos da arrecadação do IR, TAXAÇÃO DE GRANDES FORTUNAS, reservas de dólares que socorrem os mercados (leia-se: os ricos), investimentos privados em pequenas proporções;
- Incremento e modernização dos serviços e produtos oferecidos pela previdência oficial;
- Fim das aposentadorias privilegiadas, salvo aquelas em que os contribuintes corram evidente perigo de agressão a sua integridade física e risco de morte. Todos são iguais perante a lei;
- Todos devem contribuir para que possam usufruir dos benefícios, inclusive aumentando o tempo mínimo de contribuição para aposentar-se por idade, de 15 para 20 anos.
- O pecúlio ao produtor rural não deve estar vinculado aos benefícios da Previdência; se queremos ajudá-los será necessário outro fundo para suportar os custos. Ou que eles contribuam com a Previdência Oficial pelo menos por um tempo mínimo.
As medidas acima, dentre outras mais de natureza operacional poderiam render-nos aposentadorias mais dignas, por mais tempo sem o famigerado fator previdenciário.
Além disso a Previdência Oficial é um eficiente mecanismo de distribuição de renda e o Estado tem de injetar recursos, sim, na Previdência é seu dever.
Pessoal o que vocês acham?

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O som das Minas: Nas anotações de Malluh por José Roberto


O SOM DAS MINAS: NAS ANOTAÇÕES DE MALLUH – A MÚSICA INSTRUMENTAL MINEIRA É TEMA DO NOVO LIVRO DO ESCRITOR JOSÉ ROBERTO PEREIRA


 
O que acontecia no universo musical nos anos de 1980? Qual era o som das Minas Gerais nesse período? Como eram os bastidores de um grande show? Que caminhos a música instrumental mineira percorreu?  Por onde essa música reverberará?
Esses são apenas alguns dos assuntos abordados no livro O som das Minas: nas anotações de Malluh, do escritor José Roberto Pereira. Trata-se da nova obra do autor, conhecido por suas elogiadas publicações infantojuvenis (As Aventuras da Formiguinha Tonhonhõe, A Joaninha e a Margarida, O Craque/ck), sendo a primeira de não ficção.
Tendo como base o acervo particular da escritora, jornalista e produtora cultural Malluh Praxedes, o livro descortina o cenário musical dos anos de 1980, com destaque para a produção mineira, especialmente a instrumental. Grandes nomes da música são trazidos para perto do leitor, por meio das entrevistas realizadas pela jornalista e bem dispostas na obra pelo autor.
No livro, o leitor conhecerá um pouco mais da carreira de nomes como Marco Antônio Araújo, Celso Adolfo, Tadeu Franco, 14 Bis, Elomar, David Tygel (do grupo musical Boca Livre), Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Djavan, Fausto Nilo, Murilo Antunes, Túlio Mourão, Marco Antônio Guimarães (criador do Uakti), Eduardo Hazan, alguns dos entrevistados por Malluh em seus nove anos como colaboradora do jornal Estado de Minas.
Além de ter sido colaboradora do jornal, Malluh tem uma brilhante trajetória na área cultural: integrou por 21 anos a equipe do BDMG Cultural, contribuindo significativamente com a música mineira. Tem, ainda, uma sólida carreira na literatura, com 15 livros publicados. José Roberto Pereira soube tirar proveito de tudo isso, não se limitando a contar parte da história da música, o que, por si só, já seria rico.
O autor se volta também para o trabalho dos produtores, para projetos destinados à música mineira, como o Prêmio BDMG Instrumental e o prêmio Jovem Instrumentista BDMG, entre outros, que foram criados por Malluh e contaram com sua produção e coordenação e estão entre os principais prêmios do gênero no Brasil. Como não poderia deixar de ser, vida e obra da escritora e jornalista também são assuntos do livro. Tudo bem contextualizado e ancorado, ainda, em um consistente e bem cuidado trabalho de pesquisa.
Os feitos de Malluh são, assim, desvendados por José Roberto, e o leitor tem diante de seus olhos um panorama da música mineira no período abrangido pela obra e da extensão das valiosas contribuições de Malluh à área cultural. O livro é indicado tanto para quem está ou pretende entrar no campo da música como para todos que apreciam uma boa leitura e  as diversas ramificações das artes e seus profissionais.
Graduado em Letras, professor de artes, José Roberto mostra cada vez mais seu talento e versatilidade, com trabalhos consistentes na literatura, no teatro, no cinema e em outras linguagens artísticas. Com O som das Minas: nas anotações de Malluh, Pereira dá passos largos em sua carreira de escritor, apresentando um trabalho maduro, agradável, capaz de conquistar o leitor, seja ele leigo ou conhecedor dos assuntos tratados.
O livro é realizado pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Grupo Alterosa. O lançamento do livro acontecerá neste mês, com bate-papo com a presença de José Roberto Pereira e Malluh Praxedes.
Desejo aos meus amigos -- José Roberto e Malluh -- "(...) o brilho calmo dessa luz..." 14 bis.



Preço do Livro: R$ 20,00
Espaço Cultural Sílvio de Mattos
20 horas
Rua Antônio Corradi, nº 55, centro