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sábado, 7 de fevereiro de 2015

O que é o Homem?

Imagem atribuída a Blaise Pascal (1623 - 1662). Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Blaise_Pascal
Que quimera é, então, o homem? Que novidade, que monstro, que caos, que motivo de contradição, que prodígio! Juiz de todas as coisas, imbecil verme da terra, depositário da verdade, cloaca de incerteza e erro, glória e escória do universo.

QUEM DESFARÁ ESSA CONFUSÃO?

_________________________
PASCAL, Blaise. Pensamentos. Coleção os Pensadores, ed. Nova Cultural, São Paulo: 1999, p. 145.

domingo, 28 de setembro de 2014

"Era contemporânea"

O avanço tecnológico significou que os custos de produção foram se tornando cada vez
mais baratos. Os preços também diminuíram, embora num ritmo mais lento. Havia uma razão
inesperada para isso. Os modelos neoclássicos haviam previsto que os custos do
desenvolvimento de tecnologia e de produção limitariam as firmas a um tamanho
relativamente pequeno. Os mercados consistiriam assim de um número saudável de
competidores, nenhum dos quais seria capaz de alcançar um domínio do mercado que lhe
permitiria influenciar preços. Segundo os economistas neoclássicos, que estavam agora
assumindo influentes cargos governamentais tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, era
assim que o livre mercado continuaria a se desenvolver. Mas esses modelos haviam ignorado
o fato de que evolução pode também envolver cooperação (mesmo quando as regras não o
permitissem). Os mercados passaram a formar “câmaras de comércio” cujo propósito não
revelado era chegar a acordos para limitar a produção e manter níveis de preço, assegurando
assim maiores lucros do início ao fim à custa do incauto consumidor.

Em 1890 o governo dos EUA declarou esses cartéis ilegais com a Lei Antitruste
Sherman, proposta ao Congresso pelo irmão mais moço do célebre general a da Guerra de
Secessão que deu nome ao tanque. Mas a Lei Sherman não fez um tanque passar por cima dos
cartéis conspirativos como se pretendia. Na verdade, teve o efeito exatamente contrário. Com
os preços liberados, as companhias maiores começaram a vender por preços inferiores aos de
suas concorrentes menores para depois assumir seu controle. O que antes fora um acordo
tácito, tornou-se um fato de mercado. Um furor de consolidações e compras de empresas criou
novos e vastos conglomerados, que foram então capazes de controlar os preços através de seu
puro poder de mercado. Logo lucros enormes estavam sendo feitos e, como antes, era a
população que pagava. Vários dos gigantes formados nessa bonança ainda são familiares até
hoje: Union Carbide, Quaker Oats, Heinz, Eastman Kodak, American Telephone and
Telegraph (AT&T), para citar apenas alguns. Ironicamente, o único uso eficaz que se fez da
Lei Sherman durante as primeiras décadas de sua existência foi contra os sindicados
embrionários, que foram declarados cartéis ilegais que conspiravam para forçar o aumento
dos preços e limitar a produção. Na virada do século, apenas 3% da força de trabalho dos
EUA estavam sindicalizados. Uma riqueza incalculável estava sendo gerada agora nos
Estados Unidos, mas permanecia nas mãos de poucos.

Enquanto isso, na Europa, as câmaras de comércio usavam sua poderosa influência nos
bastidores para impedir a aprovação de qualquer legislação antitruste. Em conseqüência, as
companhias européias, de menor tamanho, não podiam fazer frente aos gigantes emergentes
dos EUA, que estavam agora lançando as bases para o domínio americano dos mercados
mundiais. Essa foi a era legendária em que dinossauros financeiros (e morais) espreitaram o
mercado americano, atacando à vontade tudo à sua volta, deixando atrás um rastro de
devastação que levava seu nome. J. Pierpoint Morgan quase conquistou o controle do sistema
ferroviário americano. Anedotas sobre seu poder ainda assombram. Em 1895 ele comprou
ouro suficiente para manter o dólar dos EUA no padrão-ouro; 12 anos mais tarde, evitou
pessoalmente uma quebra de Wall Street. (Alarmado ante o fato de tamanho poder financeiro
ter caído num único par de mãos, o governou instituiu o Federal Reserve.) Na altura de 1901,
a sociedade de pai e filho da Meyer e Daniel Guggenheim controlava a indústria americana da
mineração nos Estados Unidos, com participação majoritária em companhias do mundo todo
— dominando do ouro da Bolívia aos diamantes da África ocidental, da borracha do Congo
ao cobre do Alasca. Cornelius Vanderbilt (marinha mercante; “Vou lhe arruinar”) e Andrew
Carnegie (aço americano; “Cuide dos custos e os lucros cuidarão de si mesmos”) estavam na
mesma liga. Esses homens não davam a mínima para a economia. Matavam por instinto,
deixando contadores para enxugar o sangue. O dinheiro não tinha filosofia. Que era o dinheiro
afinal de contas? Tinha outro valor além de si mesmo? Não estavam interessados nestes tipos
de questões. O dinheiro em suas mãos não podia parar. Como J. Pierpoint Morgan disse a um
juiz, “eu diria que não quero um advogado para me dizer o que não posso fazer. Eu o contrato
para me dizer como fazer o que quero.” O dinheiro assumira o controle da sociedade
americana. O dinheiro podia fazer tudo. Em 1919, pôde comprar até o resultado das finais do
campeonato americano de beisebol — sem dúvida um dos momentos decisivos dessa saga
interminável conhecida como a perda da inocência americana.

A inocência pode ter sido perdida, mas o controle econômico não. Não completamente.
A parábola de John D. Rockefeller, o maior de todos os tubarões, deixa isso muito claro. Em
1863, aos 23 anos de idade, Rockefeller instalou sua primeira refinaria de petróleo em meio
aos então florescentes campos petrolíferos de Cleveland, em Ohio. Dois anos depois fundou a
Standard Oil e em 1872 a Standard estava controlando todas as refinarias de Cleveland.
Passados apenas oito anos, a Standard Oil controlava 95% de todo o petróleo produzido nos
EUA. A patifaria envolvida numa expansão tão megalomaníaca deixou em seu rastro um
entulho de esperanças destruídas. Em 1892, porém, Rockefeller (“Deus me deu meu dinheiro”)
foi processado sob a Lei Antitruste Sherman. Por 19 longos anos ele lutou com unhas e dentes,
transferindo a companhia de um estado para outro e usando todos os meios a seu dispor, mas
finalmente em 1911 a lei o pegou. A Standard Oil foi obrigada a se desfazer de nada menos
que 33 companhias petrolíferas diferentes. Algumas delas prosperam até hoje, na forma da
Mobil, Standard Oil, Exxon e Chevron. O capitalismo sobrevivera na terra dos livres,
controlando-se a si mesmo, mas sendo obrigado a se submeter ao controle do governo. Isso foi
bom não só para o mercado, mas para todos que competiam nele. Ironicamente, a renda de
Rockefeller na realidade aumentou depois que a Standard Oil foi dividida. No início do
século XXI, esta parábola está sendo repetida. Companhias multinacionais estão crescendo de
tal modo que logo poderiam ser capazes de desafiar governos importantes. Por enquanto elas
preferem métodos mais tortuosos de impor sua conduta — com uma exceção notável. Enquanto
escrevo estas palavras no meu PC, com a ajuda de meu obrigatório software Windows, a
Microsoft está no banco dos réus como a Standard Oil esteve em 1892. Rockefeller era mais
rico que Bill Gates em termos reais, mas o governo teve a vontade e a tenacidade de persistir
por 19 anos. Resta-nos ver agora de que estofo é feito o governo no século XXI. O
capitalismo só sobrevive adaptando-se ao livre mercado. Paradoxalmente, o livre mercado só
sobrevive porque sua liberdade está sob controle.

Na virada do século XX, num país em que “empreendimento” significava abocanhar
primeiro, e “consolidar o mercado” significava expulsar os concorrentes da cidade, o
“consumo” estava talvez fadado a ser excessivo. Os vitoriosos nessa guerra econômica não
conheciam limites. Delicadezas sociais como classe e gosto pertenciam ao Velho Mundo. Ser
um novo-rico no Novo Mundo era ingressar numa sociedade inteiramente nova, mas
curiosamente primitiva. O comportamento tribal dessa sociedade (...)
_____________________________
Referências

STRATHERN, Paul. Rumo à era contemprânea. In.: Uma breve história da economia. trad. Maria Luiza X. de A. Borges, Jorge Zahar editor Ltda., Rio de Janeiro: 2001. Livro eletrônico.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Ob nicht natur zuletzt sich doch ergründe? 
Goethe

________________
Citação encontrada em:
SCHOPENHAUER, Arthur.
O mundo como vontade e representação. Col. "Os pensadores", trad. Wolfgang Leo Maar e Maria Lúcia Mello e Oliveira Cacciola. São Paulo: Nova Cultural, 1999. p.19
Nota dos tradutores: "Não se haverá de compreender por fim a natureza em seu âmago?"

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

A bolsa e a Vida (Drumond)


O CÉU DA BOCA

I - A Mesa

Uma das sedes da nostalfia da infância, e das mais profundas, é o céu da boca.

(...)

A mesa funcionaria como personagem ativa, pessoa da cas, dotada do poder de reunir toas as outras, e também de separá-las, pelo jogo de preferências e idiossincrasias do paladar -- que digo? da alma, pois é no fundo da alma que devemos pesquisar o mistério de nossas inclinações culinárias.

(...)

II - O Ovo

 (...)

Quantas pessoas não transformam a imposição em ato voluntário, e quantas submissões ignoradas de nós mesmos não amortecem nossa liberdade?

(...)

DEBAIXO DA PONTE

(...)

A carne e a sensação de raridade da carne. E iriam aproveitar o resto do dia dormindo (pois não há coisa melhor, depois de um prazer, do que o prazer complementar do esquecimento), quando começaram a sentir dores.

(...)

MENSAGEM

(...)

E todo ano é assim; e assim será enquanto esta anímula sem tempo de ser alma transitar pelas ruas da vida. O tempo é nossa desculpa, nossa ferida, nosso modo de não existir, pensando que estamos vivendo. Os mortos que não me tiveram a seu lado se aprofundaram na experiência vital da morte, esses venceram o tempo, estão completos.
(...)

Omissões e rabugices de cavalherio in his fifties, desculpem; mas gostaria que a vida nos desse tempo de vivê-la. As deficiências pessoais juntam-se os excessivos (em número e grau) acontecimentos. Há acontecimentos demais para um só coração, um só espírito, um só estômago, apenas dois braços e duas pernas. Não estou me desculpando; registro.

(...)

VILA

(...)

O coração, não a memória, que é cega e se deixa enganar; o outro vai certo.

(...)
_________________________
Referências:
ANDRADE, Carlos Drumond de. A bolsa e a vida. ed. 15ª, Rio de Janeiro: Record, 2002.
(*)Imagem disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/files/2011/03/carlos3.jpg, 06.12.2012 14:44h

sábado, 27 de outubro de 2012

Noite

Que eu possa, com o grande espírito de Goethe, aprender através das linhas que se sucedem...(Joandre)

NOITE

(em uma câmara gótica, alta, abobadada e estreita, inquieto sobre um assento junto à banca)

FAUSTO. Filosofia, Leis e Medicina,
teologia 'té, com pena o digo,
Tudo, tudo estudei com vivo empenho!
E eis-me aqui agora, pobre tolo,
Tão sábio como dantes! É verdade
Que sou mestre, doutor [me chamam], e há já dez anos
Que discípulos levo, a meu talante,
À esquerda, à direita, ao sul ou norte,
Mas conheço que nada nós sabemos!
Rói-me isto o coração! Sinto-me acima 
De mestres e de padres e de escribas;
Não me assolam dúvidas nem escrúpulos,
Nem do demônio ou do inferno tenho medo --
Mas também nunca tenho hora alegre!
Nem chego a imaginar que haja ciência 
Em que deveras creias, nem que saiba
Coisa alguma ensinar que aos homens sirva,
E convertê-los possa ou melhorá-los.
Também não possuo eu nem bens, nem ouro,
Nem grandezas ou glórias deste mundo:
Um cão não suportara uma tal vida
Por isso me entreguei todo à Magia,
Para ver se do espírito as potências
Alguns arcanos revelar-me podem,
Por que não haja com suor amargo
De ensinar o que ignoro; o que sustenta
Do mundo o interior conhecer logre,
Veja as forças ativas, veja as causas
E cesse o traficar com vãs palavras.
_______________________
Referências
GOETHE, Johann Wolfgang von (1749-1832). Noite. In.: Fausto trad. Agostinho D'Ornellas. ed. Martin Claret, São Paulo: 2011 (reimpressão) pp. 33-34.

(*) Imagem de Goethe (1749-1832) disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/84/Goethe.png, 27.10.2012 23:26.

domingo, 29 de julho de 2012

O Bardo de Lima

O Bardo de Lima, como ficou conhecido aquela criatura despojada de uma compleição saudável, arrastando sua humanidade com certa cadência e grande dificuldade pelas ruas de Lima, não fosse a dedicação homérica de sua mãe a enfiar-lhe comida pela boca, naquela “(...)larva de hominídeo”, expulso do seu útero “(...) teria [ele] volatilizado”.

Seu pai, homem de uma fé exacerbada beirando à ignorância religiosa, atribuía que aquele feto vingara graças ao um milagre do Senhor de Limpias, para o qual entregara aquele títere, solidificação dos líquidos de suas gônadas escrotais.

em certa época, deu a impressão de que ia acabar tão religioso como o pai.(...) Ao vê-lo embutido na capa de coroinha, que sempre ficava grande para ele, e ao ouvi-lo recitar com devoção, em bom latim, nos altares das trinitárias, de San Andrés, El Carmem, Buena Muerte, e ainda da igrejinha de Cocharcas(...) María Portal, [sua progenitora], que havia desejado para seu filho  um tempestuoso destino de militar, de aventureiro, de irresistível conquistador, reprimia um suspiro. Mas o rei dos confrades de Lima, Valetín Maravillas, sentia o peito inchar diante da perspectiva de  que o fruto de seu sangue fosse padre.

Todos se enganavam, o menino não tinha vocação religiosa. Era dotado de intensa vida interior e sua sensibilidade de círios estralejantes, de defumadores e rezas, de imagens consteladas de ex-votos, de ladainhas, ritos, cruzes, de espiritualidade. (pp. 395-6)

Crisanto Maravillas, o bardo de quem estamos falando, conheceu seu primeiro amor no claustro das irmãs descalças, pois sua mãe, com dedos de fada preparava guloseimas para as freirinhas que as vendiam para “(...) levantar fundos para as missões da África”.

Fátima, que também contava dez anos, era fruto rejeitado de um amor impossível. Fora deixada, ainda bebê, às portas do claustro com a seguinte mensagem:

Sou filha de um amor funesto, que desespera uma família honrada, e não poderia viver na sociedade sem ser uma acusação ao pecado dos autores de meus dias que, por terem o mesmo pai e a mesma mãe, estão impedidos de se amar, de ter a mim, de reconhecer-me. As senhoras, Descalças bem-aventuradas, são as últimas pessoas que podem criar-me sem se envergonhar de mim, nem envergonhar a mim. Meus atormentados progenitores retribuirão à congregação com abundância esta obra de caridade que abrirá às senhoras as portas do céu.(p. 397)

O talento de Crisanto Maravillas revelou-se a público bem cedo; aos quatorze anos em quermesses à companhia de sua mãe, mas sua habilidade de compositor despontou em carreira meteórica. Não havia um aspirante a cantor ou cantora que iniciasse sua carreira interpretando algumas de suas composições. Mas, será que o bardo será feliz em seus empreendimentos? Em sua vida amorosa? Senhor de um corpo debilitado esgueirando-se pelas ruas de Lima como um aleijado, será seu futuro promissor?
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Referência
VARGAS LLOSA, Mário. Tia Julia e o escrevinhador. trad. José Rubens Siqueira, Rio de Janeiro: Objetiva, 2010 (excertos extraídos do cap. XVIII pp. 393 a 397).

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Nunca será uma história acabada...

Não, não, era uma história superacabada. Desde aquela noite não tive mais nenhuma relação sexual e, na verdade, o assunto não me preocupava em absoluto. Aos meus 47 anos tinha chegado à conclusão de que um homem pode levar uma vida perfeitamente normal sem fazer amor. Porque minha vida era bastante normal, embora vazia. Trabalhava muito e fazia bem o meu trabalho, para preencher o tempo e receber um salário, não porque me interessasse -- isso já era coisa rara --, e mesmo os meus estudos de russo e a quase infinita tradução dos contos de Ivan Bunin, que eu desfazia e refazia, eram atividades mecânicas, que só muito de vez em quando me pareciam divertidas. Mesmo o cinema, os concertos, a leitura, os discos eram apenas maneiras de ocupar o tempo e não atividades que me entusiasmassem, como antes. (...) eu perdera as ilusões que fazem da existência algo mais do que uma soma de rotinas. Às vezes me sentia um velho.(VARGAS LLOSA, Mário. As travessura da menina má. p. 218)
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Referências:
VARGAS LLOSA, Mario. Travessuras da menina má. Trad. Ari Roitman e Paulina Watht. Rio de Janeiro: Objetiva, 2010 p. 218.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Fragmentos VI

Estou perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.

Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu.(...)

Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.

E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.

Sim. Aceito, My Lord. Sob protesto
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.
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LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Círculo do Livro, 1981, p. 106-7.
(*) Imagem disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt52A413XL3FyaMQlvXd-ro7bugc56FBdD5B2ptnnRtLsbTWrliStA3pGP5_AjaUUg_GYTuxKydDd4KGemrJPDL5faS7Xpm0yilzv9GKi6hTzF3t4mV7VrYwfp1c8YusSMDVli5aIRazma/s1600/clarice-lispector.jpg, 05.04.2012 15:04h.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Fragmentos V

 O excerto abaixo, para mim, demonstra a genialidade da minha escritora preferida. Clarice era um universo de ideias, sensações, sentimentos. Era uma autêntica porta-voz da alma humana.

As críticas, de um modo geral, não me fazem bem. A do Álvaro Lins (...) me abateu e isso foi bom de certo modo. Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro, porque o diabo do homem só faltou me chamar de representante comercial deles. Não gosto quando dizem que tenho afinidades com Virginia Woolf (só li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim...
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Referências
LISPECTOR, Clarice. Carta a Tania Lispector Kaufmann. In.: BORELLI, Olga. Clarice Lispector: esboço para um possível retrato. 2ª ed., Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 45.
(*) foto de Clarice Lispector disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgt52A413XL3FyaMQlvXd-ro7bugc56FBdD5B2ptnnRtLsbTWrliStA3pGP5_AjaUUg_GYTuxKydDd4KGemrJPDL5faS7Xpm0yilzv9GKi6hTzF3t4mV7VrYwfp1c8YusSMDVli5aIRazma/s1600/clarice-lispector.jpg, 05.04.2012 13:31.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Fragmentos IV

Cartas pras Icamiabas

Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas.
Trinta de maior de Mil Novecentos e Vinte e Seis,
São Paulo.

Senhoras:

Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudade e muito amor, com desagradável nova. é bem verdade que na boa cidade de São Paulo -- a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes -- não sois conhecidas como "icamiabas", voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica; e assim sois chamadas. Muito nos pesou a nós, Imperator vosso, tais dislates da erudição, porém heis de convir conosco que, assim, ficais mais heroicas e mais conspícuas, tocadas por essa plátina respeitável da tradição e da pureza antiga.

(...)

Macunaíma, Imperator
___________________
ANDRADE, Mário. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 13, 97 e 109.
(*) Imagem "Amazonas" disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEg9xEs2RaICMfpwbzQrC3Qyoc04gCLvF-eDgR4uOvrlkJocmi_2QFgftooRSfmHxyrf9D9DD5CEutu1anNSbIjFJAsM92zq-0DKU6U-xQSzUZfF9fqdyWvB3g0VrS4zr7Mg6KX-EQJO2qY/s400/amazonas.jpg, 05.04.2012 13:00h

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Fragmentos III

Na academia que havia em Roma, e no palácio da sereníssima rainha de Suécia Christina Alexadra, coma assistência de muitos cardeais e monsenhores, se propôs um problema no anod de 1674 cujo argumento foi este. Se o mundo era mais digno de riso, ou de lágrimas, e qual dos dois gentios andara mais prudente, se Demócrito, que ria sempre, ou Heráclito, que sempre chorava.

Entrando pois na questão de se o mundo é mais digno de riso ou de pranto, e se à vista do mesmo mundo tem mais razão quem ri, como ria Demócrito, ou quem chora, como chorava Heráclito, eu, para defender como sou obrigado, a parte do pranto, confessarei uma coisa e direi outra. Confesso que a primeira porpriedade do racional é o risível: e digo que a maior impropriedade da razão é o riso. O riso é o final do raciona, o pranto é o uso da razão. Para confirmação desta, que julgo evidência, não quero maior prova que o mesmo mundo, nem menor prova que o mundo todo. Quem conhece verdadeiramente o mundo, precisamente há de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece.

Que é este mundo, senão um mapa universal de miséria, de trabalhos, de perigos, de desgraças, de mortes à vista de um teratro imenso, tão trágico, tão funesto, tão lamentável, aonde cada reino, cada cidade e cada casa continuamente mudam a cena, aonde cada sol que nasce é um cometa, cada dia que passa um estrago, cada hora e cada instante mil infortúnios; que homem haverá (se acaso houver homem) que não chore? Se não chora, mostra que não é racional; e se ri, mostra que também são visíveis as feras.

Mas se Demócrito era um homem tão grande entre os homens e um filósofo tão sábio, e se não só via este mundo, mas tantos mundos, como ria? Poderá dizer-se que ele ria não deste nosso mundo, mas daqueles seus mundos.

E com razão, porque a matéria de que eram compostos os seus mundos imaginados, toda era de riso. É certo, porém, que ele ria neste mundo e que se ria deste mundo. Como, pois, se ria ou podia rir-se Demócrito do memso mundo ou das mesmas coisas que via e chorava Heráclito? A mim, senhores, mo parece que Demócrito não ria, mas que Demócrito e Heráclito ambos choravam, cada um ao seu modo.

Que Demócrito não risse, eu o provo. Demócrito ria sempre: logo nunca ria. A consequência parece difícil e evidente. O riso, com dizem todos os filósofos, nasce da novidade e da admiração, e cessando a novidade ou a admiração, cessa também o riso; e como Demórcito se ria dos ordinários desconcertos do mundo, o que é ordinário e se vê sempre, não pode causar admiração nem novidade; segue-se que nunca ria, rindo sempre, pois não havia matéria que motivasse o riso.

Confirma-se mais esta verdade com o motivo e intenção de Demócrito proque não pode haver riso que se não origine de causa que agrade: Tudo o que Demócrito se ria, não só lhe desagradava muito, mas queria mostrar que lhe desagradava. (...)

Não digo que seja contrário aos princípios da verdadeira filosofia e da experiência. A mesma causa quando é moderada e quando é excessiva, produz efeitos contrários: a luz moderada faz ver, a excessiva, produz efeitos contrários: (...) [assim], a dor, que não é excessiva, rompe em vozes, a excessiva emudece. Desta sorte a tristeza, se é moderada faz chorar; se é excessiva, pode fazer rir; no seu contrário temos exemplo: a alegria excessiva faz chorar e não só destila as lágrimas dos corações dedicados e brandos, mas ainda dos fortes e duros.(...)

(...)[Logo, todo o corpo chora]; Heráclito chorava com os olhos, Demócrito chorava com a  boca; o pranto dos olhos é mais fino, o da boca é mais mordaz; e este era o pranto de Demócrito. De sorte que na minha consideração, não só Heráclito, mas Demócrito, choravam, só que com a diferença de que o pranto de Heráclito era mais natural, o pranto de Demócrito mais esquisito.(...)
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Referências:
VIERA, Padre Antônio. O Pranto e o Riso ou as lágrimas de Heráclito defendidas em Roma pelo Padre Antônio Vieira contra o riso de Demócrito. In.: VERDASCA, José (org.). Sermões Escolhidos. São Paulo: Martin Claret, 2003 p.190-193.


(*) Imagem Pe. Antônio Vieira, disponível em: http://www.mundoportugues.org/uploads/imgs/Padre_Antonio_Vieira.jpg, 01.04.2012, 19:57h.

domingo, 1 de abril de 2012

Fragmentos II

Desde 1934 -- Lampião à solta, Antônio Silvino preso no Recife, Sinhô Pereira arribado para os lados de Minas Gerais -- Clarival Valladares despertava para o mundo de significados que o cangaceiro carregava penduradas, afiveladas, cravadas ou costuradas no conjunto do traje e nos equipamentos, como ainda hoje se vê no aguadeiro das feiras do Marrocos, as cartucheiras envernizadas e bem ajoujadas ao corpo, a não deverem homenagem -- senão a requerê-la -- à guarda de um Ibn-Saud. Com a população portuguesa drenada para a aventura da Índia, foi o moçárabe, em boa parte, que veio povoar o Brasil. Presença viva na cultura brasileira, a árabe, por suas muitas composições, teve aulas a dar em maior número a um sertão de 500 mm de chuva anual que a uma faixa litorânea de fáceis 1.500 mm. O que Valladares percebeu foi a raiz pastoril da estética do cangaço, encantando-se por ver que a do guerreiro ia muito além da que pontuava as alfaias magras do pastor, por não se ver empobrecida pelo teto limitador da funcionalidade, capaz de explicar tudo na vestimenta do vaqueiro. Para ele, assim:

O traje do cangaceiro é um dos exemplos demonstrativos do comportamento arcaico brasileiro. Ao invés de procurar camuflagem para a proteção do combatente, é adornado de espelhos, moedas metais, botões e recortes multicores, tornando-se um alvo de fácil visibilidade até no escuro. lembremo-nos, entretanto, que, no entendimento do comportamenteo arcaico, o homem está ligado e dependente ao sobrenatural, em nome do qual ele exerce uma missão, lidera um grupo, desafia porque se acredita protegido e inviolável e, de fato, desligado do componente da morte. Esta explicação, embora sumária, de algum modo justifica a incidência da superfluidade ornamental no traje do cangaceiro, que, antes de sua implicação mística, deriva do empírico traje do vaqueiro.
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Referências:
MELLO, Frederico Pernambuco de. Estrelas de couro - a estética do cangaço. São Paulo: Escrituras, 2010, p. 48-9 (adaptado). Extraído de: Prova do IRB, admissão à carreira de diplomata. p.1.
(*) Imagem disponível em: http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/maio2007/fotosju358-on-line/12c.jpg, 01.04.2012 16:00h

quinta-feira, 29 de março de 2012

Fragmentos I


No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói da nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a Índia Tapanhumas pariu uma criança feia. Esssa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:

        -- Ai! que preguiça!...

e não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força do homem.

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Referências bibliográficas:
ANDRADE, Mário. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Rio de Janeiro: Agir, 2008,p. 13.
(*) Imagem disponível em: https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiSrmnozPxX0Y54Q0oqtfD5OeeorImBL5-fFOnMl0G24l2CXpQcXACemcS18Wj0QPOdnGIL4rKY_y7x5k-KLvhvutyvSUmijF9e9mD4fFjnlpxXboXvWQIv9geOl6uvsKWDJ2RwUwV9N5w/s1600/mario_andrade_macunaima.jpg, 29.03.2012 223:20h

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Palavras de Pórtico


Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso."

Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isto tenha de ser o meu corpo e minha alma a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.
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Referências:
FERNANDO, Pessoa. Palavras do Pórtico. In.: Poesias. Sueli Barros Cassal (org.). Porto Alegre: L&PM, 2011.( p. 7 ).

domingo, 2 de outubro de 2011

Eu não o conheci

Meu filho foi embora e eu não o conheci. Acostumei-me com ele em casa e me esqueci de conhecê-lo. Agora que sua ausência me pesa, é que vejo como era necessário tê-lo conhecido.

Lembro-me dele. Lembro-me bem em poucas ocasiões.

Um dia, na sala, ele me puxou a barra do paletó e me fez examinar seu pequeno dedo machucado. Foi um exame rápido.

Uma outra vez me pediu que lhe consertasse um brinquedo velho. Eu estava com pressa e não consertei. Mas lhe comprei um brinquedo novo. Na noite seguinte quando entrei em casa, ele estava deitado no tapete, dormindo e abraçado ao brinquedo velho. O novo estava em um canto.

Eu tinha um filho e agora não o tenho mais porque ele foi embora. E este meu filho, uma noite, me chamou e disse:

-- fica comigo. Só um pouquinho, pai. Eu não podia; mas a babá  ficou com ele. Sou um homem muito ocupado. Mas meu filho foi embora. Foi embora e eu não o conheci.

Oswaldo França Jr.
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FARACO, Carlos Emílio; MOURA, Francisco Marto. Pontuação: Eu não o conheci. In.: Gramática FARACO & MOURA. 12ª ed. Editora Ática S.A. São Paulo: 1993. ( p. 366).  

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Domingo na Igreja

Um domingo, pela manhã, seguíamos para a igreja. Miles caminhava ao meu lado, e flora, acompanhada de Mrs. Grose, adiante. Era um dia claro; geara um pouco durante a noite e o ar de outono, brilhante e vivo, tornava quase alegre o repicar dos sinos. Por uma estranha sucessão de pensamentos, aconteceu sentir-me, naquele momento, particularmente grata pela obediência que os meus discípulos testemunhavam. Por que não se rebelavam nunca ante a minha inexorável e constante companhia? Alguma coisa me deu a sensação de que o menino estava como que preso por um alfinete ao meu xale, e que eu, a julgar pela maneira disciplinada com que marchavam junto de mim, talvez houvesse conseguido encontrar, sem o saber, algum meio de evitar qualquer perigo de rebelião.  Eu era como um carcereiro que se mantivesse alerta contra possíveis surpresas e evasões. Mas tudo isso pertencia -- refiro-me à magnífica condescendência das crianças -- ao conjunto de fatos particularmente espantosos que já descrevi. Metido em sua roupa domingueira, feita pelo alfaiate do tio, que recebera carta branca e que compreendia muito bem a importância dos belos coletes para realçar a elegância masculina, Miles revelava em sua pessoa títulos tão convincentes relativos à sua independência, aos direitos de seu sexo e de sua situação social que eu nada teria a responder se, naquele instante, me houvesse reclamado a sua liberdade. Pela mais estranha coincidência, eu estava pensando na maneira de enfrentá-lo quando a revolução, iniludivelmente, ocorreu. Digo "revolução" porque vejo agora que, com a palavra que ele proferiu, a cortina se ergueu sobre o último ato de meu terrível drama -- e a catástrofe se precipitou.(...)
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Referência:
JAMES, Henry. Outra volta do parafuso. trad. Brenno Silveira. São Paulo: Abril 2010. pp. 111-112.

sábado, 18 de junho de 2011

Do ideal

As lagartas não podem acreditar na lenda das borboletas -- tão antiga entre o seu rastejante e esforçado povo... mas sua felicidade consiste em relembrar, às vezes, o absurdo e maravilha desse velho sonho: o de se transformarem, um dia, em borboletas. (Mário Quintana)
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Referências:
QUINTANA, Mário. Do ideal. In.: Caderno H. 2 ed. São Paulo: Globo, 2006.
(*) Imagem disponível em: http://i1.r7.com/data/files/2C92/948B/23ED/5A67/0123/EE68/437E/72F6/borboleta-m-20090924.jpg, 18/06/2011 21:12 - site: http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia/noticias/cientistas-dizem-que-borboletas-usam-suas-antenas-como-se-fossem-gps-20090924.html.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Aparência e Realidade

Bertrand Russell (1872-1970)
Haverá algum conhecimento no mundo que seja tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar? Esta pergunta, que à primeira vista pode não parecer difícil, é na realidade uma das mais difíceis que se pode fazer. Quando no dermos conta dos obstáculos que se levantam a uma resposta fácil e confiante, estaremos já bem lançados no estudo da filosofia -- pois a filosofia é apenas a tentativa de responder a questões últimas deste género, não de modo descuidado e dogmático, como fazemos na vida comum e até nas ciências, mas criticamente, depois de explorar tudo o que gera perplexidades nessas perguntas, e depois de tomar consciência de toda a vagueza e confusão que subjarz às nossas ideias comuns.

Na vida quotidiana pressupomos como certas muitas coisas que, num escrutínio mais atento, se revelam tão cheias de aparentes contradições que só uma grande quantidade de pensamento nos permite saber em que podemos realmente acreditar. Na procura da certeza, é natural começar pelas nossas experiências presentes e, num certo sentido, sem dúvida que delas será derivado conhecimento. Mas qualquer afirmação sobre o que as nossas experiências imediatas nos fazem saber está muito provavelmente errada. Parece-me que esout agora sentado numa cadeira, a uma secretária de um certa forma, na qual vejo folhas de papel escritas ou impressas. Mas ao virar a cabeça vejo para lá da janela edifícios e nuvens e o sol. Acredito que o sol está a cerca de cento e cinquenta milhões de quilómetros de distância da Terra; que é um globo quente muito maior que a Terra; que, devido à rotação  da Terra, nasce todas as manhãs e continuará no futuro a fazê-lo por um período indeterminado de tempo. Acredito que se  qualquer outra pessoa normal entrar na minha sala, verá as mesmascadeiras e secretárias e livros e papéis que eu vejo, e que a secretária que vejo é a mesma que a secretária cuja pressão sinto conra o meu braço. Tudo isto parece tão evidente que nem parece valer a pena afirmá-lo, excepto para responder a um homem que duvide que eu saiba alguma coisa. Contudo, de tudo isto se pode razoavelmente duvidar e tudo exige muita discussão cuidadosa de uma forma que seja inteiramente verdadeira.

Para tornar evidentes as nossas dificuldades, concentremos a atenção na mesa. Para a visão, é oblonga, castanha e brilhante, para o tacto, é lisa e fria e dura; quando lhe bato, emite um som de madeira. Qualquer outra pessoa que veja e sinta e oiça a mesa concordará com esta descrição, de modo que poderá parecer que nenhuma dificuldade se irá levantar; mas assim que tentamos ser mais precisos começam os problemas. Apesar de eu acreditar que a mesa é "realmente" toda da mesma cor, as partes que reflectem a luz parecem muito mais brilhantes que as outras, e algumas partes parecem brancas por causa da luz reflectida. Sei que, se me deslocar, as partes que reflectem a luz serão diferentes, de modo que a distribuição manifesta de cores na mesa irá mudar. Segue-se que se várias pessoas estão a olhar para a mesa no mesmo momento, nenhuma vê exactamente a mesma distribuição de cores, pois nenhuma pode vê-la exactamente do mesmo ponto de vista, e qualquer mudança de ponto de vista provoca alguma mudança no modo como a luz é reflectida.

Para a maior parte dos efeitos práticos, estas diferenças não são importantes, mas para o pintor são de máxima importância: o pintor tem de desaprender o hábito de pensar que as coisas parecem ter a cor que o senso comum diz que "realmente" têm, e tem de adquirir o hábito de ver as coisas como parecem. Temos já aqui o princípio de uma das distinções que provocam mais problemas em filosofia -- a distinção entre "aparencia" e "realidade", entre o que parece que as coisas são e o que são. O pintor quer saber o que as coisas parecem, o homem prático e o filósofo querem saber o que são; mas o desejo do filósofo de saber isto é mais forte do que o do homem prático, e é mais importunado pelo conhecimento das dificuldades em responder à questão.
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Referências bibliográficas
RUSSELL, Bertrand. 1. Aparência e realidade. In.: Os Problemas da Filosofia. trad. Desidério Murcho, Universidade Federal de Ouro Preto. Lisboa: edições 70, 2008 pp.69-71.
(*) Imagem, bretrand Russell (1872-1970), disponível em: http://duvida-metodica.blogspot.com/2008/11/o-que-importa-em-filosofia-o-debate-das.html, 06/04/2011 22:54

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Angústia do EXISTIR - O homem atormentado

Vivo no medo constante do dia de amanhã. Parece-me uma interrogação sem resposta. Sofro de não poder penetrar na escuridão do futuro. Só vejo Adamastores na minha rota e o mar tenebroso cheio de mistérios e perigos, ainda ignorados. A vida abre-me, de momento, os seus braços, tenta-me com toda a casta de prazeres, mas não alcanço o sossego, porque me persegue esta dúvida de saber, de compreender o momento que vivemos, e me torturam as perspectivas do amanhã....
(...)
Não creia que é medo da guerra que me traz inquieto e ansioso. Apesar de tudo, é ainda a única certeza que se desenha ante o meu espírito -- uma certeza trágica, que concretiza, de momento, as minha dúvidas e interrogações; estas persistem, no entanto ... um mal que vem de há muito...
(...)
Vivia quedo e feliz na ignorância do que ia pelo mundo; desconhecia a civilização e a vida moderna. Não sofria então destas dúvidas que me obcecam... quiz conhecer a Humanidade de hoje, e percorri todas as terras, tomei contacto com todos os povos, auscultei as suas dores e as suas necessidades, apoxonei-me pelos seus problemas, identifiquei-me com as suas aspirações, e eis-me despedaçado de angústia, ante a crise da hora presente -- uma crise única na História, de que temos a consciência plena, sem lhe vermos a solução, nem a saída; ressuscitar um passado já morto? impossível...
(...)
A esperança da felicidade na outra vida não nos basta já para sofrermos resignadamente todos os males cá da terra; vai longe a Idade Média, a Renascença desvendou-nos o mundo da Vida e da Natureza, o século XVIII revelou ao homem a ilusão dos seus direitos, da Razão e da sua liberdade, as últimas décadas trouxeram-nos o domínio da matéria, a técnica, todas estgas maravilhas da civilização. O espírito sente-se, porém, vazio, o homem não se encontra a si mesmo, sente a angústia de existir, sem encontrar o verdadeiro sentido da vida...
(...)
Uns pintam-me a barbárie, outros o paraíso de novas formas de vida e propaganda; a política desgosta-me; a crise do meu viver é mais funda, toca a própria essência da cultura. Dizem-me ainda, para me consolar, que a solução está nos problemas económicos -- já passei fome, de facto, e ainda me privo de muita coisa boa -- mas não, sinto-me mais sensível no espírito do que no estômago....
(...)
o que me apoquenta é esta desarmonia que não consegue lenitivo. Vejo tudo em crise, não encontro terra firme onde pôr o pé. Nem a ciência me dá a segurança de que precisava. Julgava que todos os fenómenos tienham uma causa bem determinada e vêm-me dizer que só o acaso rege a Natureza, as leis causais já não valem, que nos termos de enverfonhar do nosso racionalismo, da observação objectiva dos fenómenos e contar, apenas, com a intuição.... A própria existência não se encontra a si mesma, o problema do Ser alcandora-se a questão basilar da filosofia. E temos de concluir: o Nada -- a angústia de viver...
(...)
Pouco espero já da medicina. Vejo tudo mecanizado e estandardizado. As clínicas organizadas para as consultas e tratamentos em massa. Precisava que me libertassem destgas cadeias morais, que me trazem manietado... Só me cuidam do físico, sem compreender a origem existencial da minha angústia! Não quero acusar os médicos; seguem a fatalidade da época, o império do tecnicismo, o domínio das massas..., e eu queria ser compreendido como Homem, como Indivíduo, e não como um caso entre milhões...
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BARAHONA FERNANDES, Henrique João. Cap. II: O acontecer psicopatológico. Vistas Fenomenológico-Clínicas. In.: Antropociências da Psiquiatra e da saúde mental - Vol I - O Homem perturbado. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa, 1998. p. 125-127.
(*) Imagem disponível em: http://ma-schamba.com/ficheiros/adamastor.jpg, 28/02/2011 23:07.

sábado, 20 de novembro de 2010

Vidas Contadas e histórias vividas...

"Os homens são tão necessariamente loucos", sofismava Blaise Pascal, "que não ser louco seria outra forma de loucura". Não há saída para a loucura senão outra loucura, insiste Ernest Becker, comentando o veredicto de Pascal, e explica: os homens estão "fora da natureza e desesperadamente nela". Tanto em termos individuais como coletivos, todos nos elevamos sobre a finitude de nossa vida corporal, e no entanto sabemos -- não conseguimos não saber, embora façamos tudo (e mais) para esquecer -- que o vôo da vida, de maneira inevitável, vai cair no solo. E não existe uma boa solução para o dilema, pois é exatamente se elevar sobre a natureza o que abre nossa finitude ao escrutínio e a torna visível, inesquecível e dolorosa. Fazemos o possível para transformar nossos limites naturais no mais bem guardado dos segredos; mas, se tivéssemos sucesso nesse esforço, teríamos pouca razão para nos esticarmos "além" e "acima" dos limites que desejamos transcender. É a própria impossibilidade de esquecer nossa condição natural que nos lança e permite que pairemos sobre ela. Como não nos é permitido esquecer nossa natureza, podemos (e precisamos) continuar desafiando-a.
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Referências:
BAUMAN, Zygmunt. Vidas Contadas e histórias vividas uma proposta inicial. In.: A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. trad. José Gradel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008 p. 7.
(*) Imagem do Sociólogo Zygmunt Bauman, disponível em: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/c/c8/Zygmunt_Bauman_by_Kubik.JPG, 19/11/2010 23:33 hs.